domingo, 21 de setembro de 2014

Medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Física não gosta de ser chamado de nerd

Aluno do Pedro II tem boas notas, ajuda amigos, é representante de turma e ainda participa da missa como coroinha





Maior pontuação do Rio. Gabriel mostra a medalha sob o olhar orgulhoso da mãe, Edilene: com dedicação, se vai longe
Foto: Márcia Foletto
Maior pontuação do Rio. Gabriel mostra a medalha sob o olhar orgulhoso da mãe, Edilene: com dedicação, se vai longe - Márcia Foletto



RIO - No chão do quarto, livros. Na sala, o cenário é o mesmo. Apesar do incômodo de sua mãe, é assim que o estudante Gabriel Laurentino, de 16 anos, gosta de deixar seu material escolar: sempre à mão. Aluno do 2º ano do ensino médio do Colégio Pedro II, campus Tijuca, ele ganhou a medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Física das Escolas Públicas (OBFEP) 2013, entregue este ano. Detalhe: com a maior pontuação do Rio de Janeiro. O prêmio, promovido pela Sociedade Brasileira de Física, deu a Gabriel o passaporte que precisava para participar da seleção da Olimpíada Internacional de Física, que acontecerá em julho de 2015 em Mumbai, na Índia. Caçula de quatro filhos de uma família humilde do bairro de Cordovil, Gabriel nunca viajou para fora do país, e já sonha com a chance de mostrar o que sabe no continente asiático.

— Ele é um diferencial, tem todas as chances de estar entre os cinco estudantes que irão para a Índia, e ainda trazer a medalha para o Brasil. Inclusive, a pontuação que ele conquistou na Olimpíada contribui para que ele possa concorrer a uma bolsa de estudo no exterior pelo programa Ciência sem Fronteiras, do governo federal — diz José Ricardo Campelo Arruda, coordenador estadual da OBFEP.

Com o tom de voz muito baixo e visível timidez, Gabriel conta que sempre foi fascinado pelas ciências exatas. Tanto que, em 2010, ficou entre os 200 melhores estudantes do país na Olimpíada Brasileira de Matemática e, no ano passado, conquistou o primeiro lugar na Olimpíada Interna de Química do Colégio Pedro II — onde estuda desde o 6º ano do ensino fundamental.

— São disciplinas que tenho facilidade, sempre tiro boas notas. Hoje, não tenho muito certeza de qual carreira profissional seguirei, mas penso em fazer Engenharia Química. Nas ciências humanas já tenho mais dificuldades — conta Gabriel, cuja menor nota no boletim do primeiro semestre deste ano é em Geografia, 9,3.

UM JOVEM COMO QUALQUER OUTRO

Apesar de só tirar boas notas e ser sempre procurado pelos colegas de classe para tirar dúvidas, até por telefone, na véspera das provas, Gabriel não gosta de ser chamado de nerd pelos amigos.

Levo a vida como todos os jovens. A diferença é que a maioria acha que as ciências exatas são bichos-papões, e eu sou apaixonado por elas. Como meus amigos, gosto de ficar mandando e recebendo mensagens no celular, de tocar violão e, sempre que posso, vou na casa da minha namorada, em Pilares, depois da aula — argumenta o estudante, que nas horas vagas ainda é coroinha na igreja do bairro.

Com semblante orgulhoso, a mãe de Gabriel, Edilene Laurentino, conta que nunca precisou exigir que ele melhorasse as notas na escola.

— Meus filhos sempre estudaram em escola pública. A medalha de ouro que o Gabriel recebeu é uma prova de que, quando se tem dedicação, a pessoa consegue ir longe — diz Edilene, que é porteira da UPA Madureira.

Orientador educacional do Colégio Pedro II, Rene Vettori lembra que Gabriel já se destacava com notas altas desde o ensino fundamental. No ano passado, Vettori foi quem fez a pré seleção dos estudantes da instituição para o Programa de Vocação Cientifica da Fiocruz, o Provoc, e não teve dúvida na indicação de Gabriel.

 — Lógico que ele foi aprovado, pois tem uma capacidade intelectual incrível. Atualmente, ele é o aluno do Pedro II mais cotado para ganhar, em 2015, o prêmio “Pena de Ouro” da instituição, que é dado ao estudante que adquire a maior média geral de todo o ensino médio. É um orgulho ter o Gabriel como aluno — adianta Vettori.

A pontualidade, a participação e a frequência nas aulas fazem parte da rotina do estudante. Diariamente, ele usa ônibus e metrô para ir e voltar da escola, mas não acha cansativo. Além de estudar das 13h às 18h, ele ainda participa das reuniões do colégio como representante da turma.


— Sempre sou eleito representante. Dizem que tenho liderança mesmo falando baixo. Será? — questiona, com um sorriso nos lábios.


Nenhum comentário:

Postar um comentário