quinta-feira, 28 de agosto de 2014


Pesquisas mostram que existe um fator que faz grande diferença no desempenho do seu filho, na escola e na vida. Algo mais determinante do que inteligência ou recursos: a sua boa conexão com ele

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NÃO-COGNITIVAS

A importância do vínculo

Foto: Cuidado e amor
Carinho e cuidado são os ingredientes fundamentais para o desenvolvimento saudável das crianças


10/07/2014 17:27
Texto Carolina Tarrío

Carinho e cuidado são os ingredientes fundamentais para o desenvolvimento saudável das crianças

Qual é a melhor ferramenta para garantir um bom futuro ao seu filho? Uma poupança que banque uma ótima educaçãoCursos atividades extracurriculares que o ajudem a desenvolver múltiplas habilidades ? Estímulos adequados desde a concepção até os primeiros anos, quando océrebro está em formação e absorve quantidades enormes de dados? Ou ao contrário, deixá-lo dispor de tempo livre para experimentar descobrir o mundo?

Essas dúvidas cruzam a mente de pais e mães por todo o planeta. Algumas nos torturam até, ou nos enchem de culpa e de trabalho extra, já que bancar boas escolas e cursos não custa pouco. A questão é que a resposta correta talvez não esteja aí. "O que mais importa no desenvolvimento de uma criança não é a quantidade de informação introduzida em seu cérebro nos primeiros anos de vida. E, sim, ajudá-la a desenvolver um conjunto de características, como persistência, autocontrole, curiosidade, escrúpulos, determinação e autoconfiança, que vão fazer diferença tanto no seu desempenho escolar como por toda a vida", diz o jornalista americano Paul Tough, autor do livro Uma Questão de Caráter (Ed. Intrínseca), que investigou por que características emocionais podem ser mais determinantes do que inteligência ou recursos em uma educação de sucesso.

Mas como garantir que essas características emocionais se desenvolvam? Vários estudos comprovam que existe uma condição essencial, primeira - e determinante para que elas aflorem. Quer saber a melhor parte? É grátis e está ao alcance de todos nós. Trata-se de uma ferramenta poderosa, que nasce e cresce com cada mulher e com cada homem que se tornam mãe e pai: dedicar ao seu filho sua presença, seu cuidado atento, seu amor.

Assim, antes de se perguntar se é melhor tocar Mozart para o seu bebê recém-nascido ou pesquisar desde já bolsas de estudos em faculdades top de linha, talvez seja melhor analisar um período de licença maternidade maior ou a diminuição da sua jornada de trabalho. Resultados de diferentes pesquisas apontam que, para que seu filho adquira a segurança e as habilidades necessárias para usufruir de tudo o que você - e o mundo - puderem colocar à sua disposição, para que ele desenvolva ao máximo suas potencialidades, o que mais ele necessita é de uma conexão amorosa com você.

O psicanalista britânico John Bowlby e Mary Ainsworth, pesquisadora da Universidade de Toronto, já haviam mostrado, em uma série de estudos publicados na década de 1960 e início da década de 1970, que os bebês cujos pais atendiam pronta e plenamente ao seu choro nos primeiros meses de vida mostravam-se, com 1 ano de idade, mais independentes e intrépidos do que aqueles cujos pais os tivessem ignorado. Na pré-escola, esse padrão se confirmava. Crianças cujos pais tivessem reagido de maneira mais sensível às necessidades emocionais delas quando bebês eram as que demonstravam maior autonomia.

Seguindo a mesma linha, Clancy Blair, pesquisador de psicologia na Universidade de Nova York, vem promovendo um experimento em larga escala no qual acompanha um grupo de mais de 1.200 crianças praticamente desde o nascimento. Um dos testes que faz é medir os níveis de cortisol dessas crianças ao enfrentarem situações adversas. O cortisol é um hormônio intimamente ligado ao sistema emocional, que serve para controlar inflamações, alergia, estresse. A intenção é ver como cada criança reage em momentos de turbulência familiar, caos, tumulto, ou seja, como lida com instabilidade e problemas.

Blair constatou que esses momentos de fato têm grande efeito nos níveis de cortisol das crianças mas apenas quando as mães se mostram desatentas ou indiferentes. Quando as mães apresentam um alto grau de atenção e se conectam positivamente com as crianças, o impacto desses fatores ambientais sobre os filhos parece quase desaparecer. Ou seja: cuidados de alta qualidade funcionam como um poderoso amortecedor perante eventuais danos causados pela adversidade. E constituem uma base segura a partir da qual a criança se coloca perante o mundo e o explora com maior eficácia. Mas em que consiste exatamente esse cuidado de qualidade? Veja, em cada etapa do crescimento, como ele pode se traduzir.


Cuidado de qualidade em bebês

"Até para desenvolver-se fisicamente - sem falar no lado cognitivo e emocional -, o bebê precisa de encontro, abraço, toque, acolhimento por parte da mãe ou de quem vá exercer esse papel, caso não seja a mãe biológica", diz a psicóloga Lais Fontenelle, consultora do Instituto Alana, que trabalha em prol da infância. "Um bebê que está envolto pela mãe e misturado com ela antes de nascer, continua precisando desse contorno, desse contato, no mundo aqui fora." Estudos mostram que bebês que apenas têm supridas as suas necessidades básicas, como comer, dormir e ser higienizado, sem receber carinho ou estímulo, terão dificuldades no desenvolvimento. A privação do tato ocasiona atrasos no sistema neurológico, fisiológico e motor. Isso acontece porque os neurônios responsáveis pelas áreas táteis, se não estimulados, morrem mais rápido. 

Uma pesquisa do Baylor College of Medicine, em Houston, nos EUA, comprovou que crianças que não são tocadas e que raramente brincam têm um cérebro entre 20 e 30% menor que o normal para a sua idade. Portanto, amamente seu bebê, abrace-o, toque-o, converse com ele, mostre a ele o mundo. Preste atenção em suas reações e permita-se conhecê-lo aos poucos, estabelecendo ritmos e rituais que funcionem para ambos. "O mais importante é estar inteiro, atento. Quem for dar o peito ou a mamadeira para uma criança, precisa estabelecer contato, olhar para ela, aconchegá-la. Não dá para amamentar falando ao celular", diz Lais. 

- O que fazer quando seu filho não se interessa pelas coisas que você apresenta para ele? 

As dúvidas: Gostaria muito que meu filho gostasse de música, como eu. Devo inscrevê-lo em um curso, mesmo que ele não goste muito da ideia no começo? Ou será que é melhor deixa-lo livre para escolher algo de que goste? Se eu comparar com o amigo que toca violão, ele se interessará mais? 

O que dizem os especialistas: A criança tem competências inatas. Se os pais criarem um ambiente propício, esses talentos irão se desenvolver. Mas nem sempre os talentos de seu filho são aqueles que você mais valoriza ou espera. Nesse caso, respeitar as aptidões do outro e acompanhar suas descobertas se faz essencial. "Tente experimentar aquilo de que seu filho gosta. Quem sabe você não descobre, brincando, que aprecia a atividade também?", propõe diz Lais Fontenelle, consultora do Instituto Alana.


Nessa altura, em que a criança já se desenvolveu e adquiriu uma certa independência e conhecimentos, é importante dosar até onde se pode ir. Com relação à entrada no mundo digital, por exemplo, o melhor é que ela aconteça acompanhada, que seu filho explore esse território junto com você e aprenda que ali também existem regras de comportamento e limites, tanto quanto fora do mundo virtual. Também é importante não deixar na mão da criança ferramentas ou responsabilidades que ela não possa administrar ainda. "As crianças hoje participam demais do mundo adulto. Com isso, acabam vendo e entrando em contato com coisas que são difíceis de assimilar, de lidar", diz Adriana Friedman. É preciso ter cuidado com os conteúdos aos quais a criança está exposta - sejam batepapos, filmes, TV, internet. "Por momentos, as crianças repetem coisas que ouviram ou viram.

Mas repetir nem sempre é entender, nem sempre quer dizer que elas conseguiram elaborar aquele conteúdo", lembra Adriana. Outra forma de continuar a ter um bom contato com os filhos é respeitar as suas características, suas habilidades individuais e o seu tempo. Um gosta mais de beijo e abraço, outro de papo, outro de silêncio? Acolha o jeito de cada um e evite fazer comparações entre um filho e outro, ou entre ele e os colegas.





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