sexta-feira, 20 de junho de 2014

INTELIGÊNCIA SUPERIOR EM ALUNOS COM ASPERGER E EM ALUNOS SUPERDOTADOS E A NECESSIDADE DE EDUCAÇÃO ESPECIAL PARA AMBOS OS GRUPOS


Tenho reparado, tanto no meu grupo do Facebook, Mãe de Crianças Superdotadas : https://www.facebook.com/groups/213399982041957/, que hoje conta com mais de  3.500 membros, um número, cada vez mais crescente, de crianças com altas habilidades também com Asperger. 

Convém esclarecer que não somente os alunos com altas habilidades/superdotação têm direito à educação especial e programas para alunos superdotados, mas, também os alunos com Asperger com inteligência superior possuem este direito.

Quando me refiro ao atendimento educacional especial em relação às altas habilidades, estou me referindo à inteligência como sendo uma capacidade mental muito geral que permite raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de maneira abstrata, compreender idéias complexas e aprender (Roberto Colom, em Introdução à Psicologia das Diferenças Individuais, Carmem Flores-Mendonza e Roberto Colom, Ed. Artmed).

Os escores alcançados pelas pessoas nos testes de inteligência predizem as diferenças no desempenho escolar.

A característica clássica que define um aluno com superdotação (inteligência acima da média) do tipo acadêmico é que, além da habilidade acima da média, o envolvimento com a tarefa e a criatividade (conceito de Renzulli), verifica-se, também, a prevalência, nestas crianças de um QI superior (para fins de superdotação acadêmica este QI tem que ser acima de 130).

Verificamos na população de crianças com Asperger que elas também podem apresentar QI acima da média (nesses casos o QI verbal é mais alto que QI executivo, frequentemente 20% mais alto).

Muitas crianças Asperger apresentam PRECOCIDADE NA LEITURA E FIXAÇÃO PRECOCE POR LETRAS E NÚMEROS, o que é chamado de hiperlexia. Na hiperlexia a criança apresenta alta capacidade de leitura e uma espécie de obsessão por letras e números, porém acompanhada de uma espécie de defasagens em outras áreas do desenvolvimento. Essa síndrome pode ser entendida a partir de três características principais : capacidade precoce de leitura, dificuldade em lidar com a linguagem oral e uma inadaptação social dos comportamentos. Por isso que, quando os pais nos procuram no meu grupo Mãe de Crianças Superdotadas, manifestando que seus filhos apresentam interesse precoce por letras, números, leitura, etc, precisamos saber, exatamente, se este interesse é decorrente de uma superdotação pura e simples, de hiperlexia ou Asperger. Ou seja, nem sempre o interesse precoce por letras e números representa superdotação. Por isso que o olhar atento dos pais, sobre a criança que apresenta este interesse, fixação ou fascínio precoce por letras e números deve ser redobrado e também cogitar se a criança pode ou não estar dentro do espectro.

O conceito de superdotação atribuído pelo World Council for Gifted and Talented Children e  adotado pelo MEC é o de que "São consideradas crianças superdotadas e talentosas as que apresentam notável desempenho e/ou elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: 

capacidade intelectual superior
;aptidão acadêmica específica ;

pensamento criador ou produtivo ; 

capacidade de liderança; 

talento especial para artes visuais, artes dramáticas e música  e capacidade psicomotora”.

As características do aluno Superdotado do tipo acadêmico (Renzulli & Reis, 1997) são:

Tira boas notas na escola ;

Apresenta grande vocabulário ;

Gosta de fazer perguntas ; 
                                                               
Aprende com rapidez ;

Apresenta longos períodos de concentração ;

Tem boa  memória ;

É perseverante ;

Apresenta excelente raciocínio verbal  e/ou numérico ;

Tem paixão em aprender ;

Superdotado Acadêmico :  Notável desempenho acadêmico, aprende rapidamente, apresenta um nível de compreensão mais elevado, é mais facilmente identificado nos testes de QI.


Crianças com Asperger e com inteligência superior, que apresentem estas mesmas características também têm direito a se beneficiar dos programas desenvolvidos para alunos com altas habilidades / superdotação.

A pessoa afetada pela Síndrome de Asperger está em nosso mundo, porém vivendo em sua estrita forma de ser. Apresentam interesses peculiares, tais como astronomia, física quântica, química, dinossauros, geologia, etc. A criança Asperger dá a impressão de ser um “adulto no corpo de uma criança” e/ou de aparentar ter superdotação intelectual, apresenta interesses extracurriculares específicos e transitórios. Mas, além disso, apresentam prejuízos sociais, têm poucos ou nenhum amigo e dificuldade de se relacionar.

Os superdotados intelectualmente, sem TEA  (Transtorno do Espectro do Autismo/ Asperger), por sua vez, não apresentam prejuízos sociais, em si, mas BAIXA TOLERANCIA À LIMITAÇÃO GLOBAL DAS PESSOAS “COMUNS”. Possuem uma verdadeira erudição e conseguem generalizar os conhecimentos, utilizando-os para seus interesses, que não são restritos. Não há prejuízo na prosódia e entendem precisamente os conceitos das palavras e termos que usam, o que os diferencia da hiperlexia clássica. Essa entidade deve ser considerada como Diagnóstico Diferencial para suspeita de Síndrome de Asperger. (Síndrome de Asperger e outros Transtornos do Espectro do Autismo de Alto Funcionamento : da avaliação ao tratamento”, Autor : Walter Camargos Jr. E colaboradores. Editora ArteSÁ, Belo Horizonte – 2013)

De tudo o que se lê, até agora, é fácil constatar que um limiar muito tênue entre os superdotados e os Aspergeres. O fato é que ambos têm direito à Educação Especial, no que diz respeito às altas habilidades, segundo as diretrizes estabelecidas pelo MEC e a legislação educacional a este respeito. E não podemos nos esquecer, neste momento, de que o aluno com Asperger, que apresenta inteligência superior também deve se beneficiar dos programas especiais para alunos com altas habilidades/superdotação.

Há necessidade desses alunos (seja o meramente superdotado ou o Asperger com altas habilidades) serem identificadas o quanto antes e que um atendimento diferenciado é essencial a esses indivíduos para que os talentos não sejam desperdiçados e para favorecer não só o pleno desenvolvimento dos talentos em questão, mas, também, o pleno desenvolvimento emocional e psicológico dessas crianças, futuros adultos (Alencar, 2007; Antipoff, 1992; Freeman & Guenther, 2000; Guenther & Freeman, 2000; Maia-Pinto & Fleith, 2002).

A inclusão escolar é uma política que busca perceber e atender às necessidades educativas especiais de todos os alunos, em salas de aulas comuns, em um sistema regular de ensino, de forma a promover a aprendizagem e o desenvolvimento pessoal de todos.

O Parecer nº 17 de 2001 do CNE/MEC CO assim considera: “ 2. Educandos que apresentam necessidades educacionais especiais são aqueles que, durante o processo educacional, demonstram :

(...)

2.3. altas habilidades/superdotação, grande facilidade de aprendizagem que os leve a dominar rapidamente os conceitos, os procedimentos e as atitudes e que, por terem condições de aprofundar e enriquecer esses conteúdos, devem receber desafios suplementares em classe comum, em sala de recursos ou em outros espaços definidos pelos sistemas de ensino, inclusive para concluir, em menor tempo, a série ou etapa escolar.

Este Parecer prevê como forma de atendimento educacional flexibilizações e adaptações curriculares, que considerem o significado prático e instrumental dos conteúdos básicos, metodologias de ensino e recursos didáticos diferenciados e processos de avaliação adequados ao desenvolvimento dos alunos que apresentam necessidades educacionais especiais, em consonância com o projeto pedagógico da escola, respeitada a freqüência obrigatória; serviços de apoio pedagógico especializado, realizado: na classe comum, mediante atuação de professor da educação especial, de professores intérpretes das linguagens e códigos aplicáveis, como a língua de sinais e o sistema Braille, e de outros profissionais, como psicólogos e fonoaudiólogos, por exemplo; itinerância intra e interinstitucional e outros apoios necessários à aprendizagem, à locomoção e à comunicação; em salas de recursos, nas quais o professor da educação especial realiza a complementação e/ou suplementação curricular, utilizando equipamentos e materiais específicos.

A Resolução nº 4, de 2 de outubro de 2009 - MEC – CNE prevê a possibilidade de enriquecimento curricular para alunos com altas habilidades/superdotação desenvolvidas no âmbito de escolas públicas de ensino regular em interface com os núcleos de atividades para altas habilidades/superdotação e com as instituições de ensino superior e institutos voltados ao desenvolvimento e promoção da pesquisa, das artes e dos esportes. Convém frisar que estas medidas também devem ser aplicadas aos alunos com Asperger e altas habilidades.

O DECRETO N.º 7.611/11  dispõe que “a educação especial deve contemplar os estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação”, e prevê que “o conjunto de atividades, recursos de acessibilidade e pedagógicos organizados institucional e continuamente devem constar da proposta pedagógica da escola”.

“Art. 59.  Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação:

I - currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e  organização específicos, para atender às suas necessidades;

II -  (...) aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar            para os superdotados;


Cada vez mais, tenho notado que o número de aluno com altas habilidades com direito à educação especial vem crescendo, porque além daqueles alunos meramente superdotados, também encontramos, em número cada vez maior, os alunos com Asperger e que também apresentam altas habilidades. As altas habilidades, no que dizem respeito ao atendimento educacional, devem ser atendidas nas crianças com Asperger (quando estas apresentam altas habilidades) da mesma forma que deve se verificar com os alunos superdotados.  

Já a questão da dificuldade na socialização e na forma da criança se relacionar com seus pares, o hiperfoco, as manias, a hipersensibilidade sensorial, a dificuldade em lidar com a frustração, presentes em crianças com Asperger (e também caso estes traços isolados apareçam nas crianças meramente superdotadas -  desde que não se refiram á dificuldade de se socializar, pois, neste caso, estaremos diante de um quadro de Asperger e não de mera superdotação) serão tratados por psicólogos e terapeutas específicos, quando estes traços e características estiverem prejudicando o desenvolvimento da criança.

O objetivo deste artigo é deixar claro que, quando falamos em atendimento educacional ao aluno com altas habilidades / superdotação, não podemos desconsiderar este público que está cada vez mais significativo formado pelos alunos com Asperger e que também apresentam altas habilidades.



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