segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mudanças no Decolar deixam pais, alunos e professores com receio sobre futuro do projeto



decolar
Secretaria da Educação promete criar salas de aulas especiais em mais escolas, mas medidas já tomadas preocupam universo do programa

Xandu Alves

São José dos Campos

O Decolar decola?

Um dos mais bem sucedidos programas educacionais de São José, o Decolar (Desenvolvimento do Talento), traz hoje mais dúvidas do que certezas. Desde o começo do ano, a Secretaria de Educação vem fazendo mudanças pontuais no programa que assustaram pais, alunos, professores e voluntários. Eles temem pelo futuro da atividade.

Criado em 2007, o programa atende alunos com habilidades especiais da rede municipal de ensino de São José, entre o 6º e o 9º ano, oferecendo apoio e atividades suplementares. "Estão fragilizando o programa para dizer, no final, que ele não é mais viável", diz Vanessa Silva, mãe de um dos 317 alunos do Decolar.

Preocupados com as intenções da Secretaria de Educação de São José, que os pais dizem desconhecer, eles criaram uma comissão para defender o Decolar. Também participam professores e voluntários do programa.
Planejamento. 

O grupo afirma que a pasta não planejou as mudanças que fez, como o fechamento de quatro unidades e a concentração das atividades no Cedemp (Centro de Educação Empreendedora), na zona sul, improvisadas em laboratórios de informática. O corte de linhas telefônicas também surpreendeu os pais.

Faltaram explicações e sobraram dúvidas, que estariam levando à desistência de muitos alunos. "O trajeto ficou mais longo para quem mora em outras regiões da cidade. Isso tem desmotivado alguns alunos", aponta Marlene Silva, professora e mãe de um estudante do Decolar.

A Secretaria de Educação explica que as unidades funcionavam em locais inadequados (duas estavam em creches), que o Cedemp é sede temporária (será um núcleo de referência) e que a proposta é abrir salas regionalizadas em escolas. Para tanto, o programa está sendo reestruturado.

"As mudanças são muito mais de ordem administrativa do que de conteúdo", garante Maria Zélia da Silva, diretora do Departamento de Educação Básica da Secretaria de Educação, que coordena a reestruturação do Decolar.

Diferentes 

O medo dos pais dos estudantes é que se ofereça aos alunos o "mais do mesmo": atividades extracurriculares no contra-turno das aulas, dentro das escolas. Para eles, é pouco diante da capacidade dos "decolares".
"Eles querem dar mais do mesmo para as crianças. Transferir o Decolar para a sala de aula. Isso vai desmotivá-los", disse Márcia Theodoro, cujo filho está no programa.

O Decolar foi baseado no Cedet (Centro para o Desenvolvimento do Potencial e Talento) de Lavras (MG), fruto de décadas de estudos da psicóloga, educadora e pesquisadora Zenita Guenther, 76 anos. Ela foi contratada pela Prefeitura de São José e passou quatro anos orientando a pasta para a implantação do Decolar.

Zenita rejeita o termo "superdotado" e prefere usar "dotação e talento" (que vêm de dentro do aluno) e "capacidade" (o que a criança é capaz de fazer). Segundo a psicóloga, crianças assim têm que "conhecer outras coisas" e serem tratadas "de forma diferente".

Aliás, é o que determina a Lei de Diretrizes e Bases na perspectiva da educação inclusiva. Precisam de atendimento diferenciados os que estão aquém do aprendizado e os que estão além. Ou seja, quem não consegue acompanhar o ritmo da sala de aula e quem o ultrapassa. Eles precisam de educação suplementar.

"É preciso fazer um plano de trabalho com a criança e ajudá-la a cumprir", diz Zenita. "Há o risco de perder talentos por falta do estímulo certo."

Referência 

A metodologia do Cedet tornou-se referência de boa prática educacional no campo do talento e da superdotação. O centro foi citado no relatório Tower Report, de 2010, da pesquisadora inglesa Joan Freeman, CEO do Tower Education Group.

O estudo elencou as melhores práticas no mundo para o desenvolvimento do talento de alunos em formação. O Colégio Embraer, de São José, também foi citado.


A coordenadora do Decolar, Luciane Mirella, explica a necessidade de diferenciação para os alunos com habilidades especiais. Os que têm dificuldade de aprendizado, quando integrados à sala de aula, que seria a "média", são "puxados para cima". Mas os que se destacam são "puxados para baixo" se ficarem apenas no mesmo patamar dos demais.
"A escola é pouco para essas crianças. Elas precisam de atividades suplementares até para ajudá-las no relacionamento social", disse ela.

Mudanças 

Nas próximas semanas, a Secretaria de Educação irá convocar os pais de alunos do Decolar para explicar as mudanças. Maria Zélia antecipa que ele deixará de ser apenas um programa e passará a ser um AEE (Atendimento Educacional Especializado).

Segundo ela, serão implantadas salas regionalizadas em escolas para facilitar o acesso dos alunos no contra-turno e garantir a proximidade dos professores especializados com os de ensino regular. 


Do Decolar à Unesp, o sonho de Hamilton

Família pobre, casa simples, bairro violento.

O futuro de Hamilton Evangelista não era dos melhores. Ele vivia no Campo dos Alemães, na zona sul de São José, e não tinha perspectiva de sucesso na vida.

 Sentia "fome" de conhecimento, mas a escola não o saciava e tampouco os pais podiam pagar cursos a ele, que chegou a ser reprovado por faltas tamanha a desmotiva-ção. Mesmo assim, foi indicado ao programa Decolar, e a vida mudou completamente.

Hoje, aos 18 anos, depois de aprender inglês, robótica e avançar em matemática no Decolar, tornou-se aluno de Física Biológica na Unesp (Universidade Estadual Paulista), em São José do Rio Preto.
E quer mais.

"Quem pensaria em alguém pobre estudando numa das melhores escolas do país. Tudo graças ao Decolar", diz ele, que ainda quer entrar no ITA, em São José, seu grande sonho. "Vou ser engenheiro."


Professores temem uso ideológico

O VALE conversou com professoras do Decolar, que pediram para não ser identificadas. O temor delas é o viés ideológico "engolir" o científico e educacional. "O secretário (da Educação) diz que o programa tem erros e é caro, mas não aponta quais nem apresenta a conta", diz uma delas, ressaltando: "As crianças são o mais importante de tudo."

Para aluno, escola antiga não era boa

Victor Silva, 12 anos, se sentia um nerd quando só ele na sala queria saber mais sobre os povos antigos. "A professora falava dos Astecas e eu queria saber o que havia antes deles." Indicado por professores, ele acabou no Decolar no ano passado. Faz atividades de história, mitologia, robótica e programação de jogos. Agora quer saber mais de aviação.


Entrevista

'Tem que desligar a educação da política'

Zenita Guenther, psicóloga e educadora
Zenita Guenther, psicóloga e educadora

A Secretaria disse aos professores do Decolar que há erros na metodologia. Concorda?

A metodologia é baseada em mais de 20 anos de estudos científicos e na prática. Não é só uma teoria, mas um plano de trabalho que incorpora estudos de pesquisadores renomados e baseado na ciência da educação. Se há erros, a Secretaria deve apontá-los. Mas não acredito nisso. Tem dado certo em várias cidades no país e no mundo. O método foi considerado referência nacional em 1998.


Por que a sra. acha que a atual gestão quer mudar o Decolar?

Tenho uma tese, em razão do que ocorreu em outras cidades. O Cedet (Centro para o Desenvolvimento do Potencial e Talento) teve problemas com os políticos no governo federal, em 2003. O MEC quis enquadrar o programa, mas ele tem que ser enquadrado pela ciência, não pelo MEC. Assim, quem quer ficar bem com o MEC acaba tirando o programa. Isso prejudica o método. Esse ato não teve conceituação científica, só ranço ideológico. Estamos fazendo o que é certo. Não temos apoio na ideologia do MEC.

A troca de partido na prefeitura, do PSDB para o PT, pode ter atrapalhado?

Sim, há essa interferência política em alguns lugares. Mas há também bons exemplos, como em Poços de Caldas (MG), em que houve troca de partido e o PT entrou na prefeitura, mantendo o programa como estava sendo feito.

O que foi diferente em Poços de Caldas?

A prefeitura fez uma legislação apropriada para o programa, não o deixando solto, sem regras bem definidas. É uma conquista da cidade. Quem quer que assumisse a administração teria que manter o programa. Não aconteceu em São José, não houve uma legislação para garantir a manutenção do programa.

Essa interferência política é ruim para o Decolar?

A política mina e descontinua o programa. A educação precisa de continuidade. Um governo quer acabar o que foi feito pelo anterior. Com isso, os programas em educação voltam à estaca zero. Tem que desligar a educação dos políticos.


 



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