terça-feira, 3 de setembro de 2013

A USP segue tendência de universidades americanas e deve beneficiar estudantes que se destacam nas competições científicas

Olimpíadas científicas viram diferencial acadêmico para universidades



Campeão em olimpíadas científicas, Gustavo Haddad Braga hoje estuda no MIT, nos Estados Unidos Foto: Divulgação

Atrair talentos acadêmicos é um dos motivos que fez com que a Universidade de São Paulo (USP) anunciasse, no final de abril, que estuda criar um bônus para alunos que participaram de olimpíadas científicas durante a educação básica. Apesar de a universidade não querer dar mais detalhes sobre a proposta, o anúncio representa um avanço no reconhecimento dessas iniciativas, tradição difundida nos Estados Unidos, por exemplo.

Diretor do Centro de Estudos de Ensino Superior da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Jacques Schwartzman ressalta que as instituições americanas levam em conta o aluno de forma mais completa, não tomam como base apenas um exame. “Essa ideia da USP é semelhante, estimula uma atividade diferente, que vai além da prova”, explica.

O docente lembra que as universidades são autônomas e podem realizar seu processo seletivo da forma que julgarem mais adequada, por isso, nada impediria que houvesse outras variáveis para ingresso além do vestibular e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).  “A universidade é meritocrática, e ter outros fatores de mérito além do Enem pode ser bom, pois eles formam o conjunto de um aluno de graduação”, complementa.

A universidade é meritocrática, e ter outros fatores de mérito além do Enem pode ser bom, pois eles formam o conjunto de um aluno de graduação


Jacques SchwartzmanProfessor da UFMG


Coordenador do Etapa, o professor Edmilson Motta participa do treinamento de brasileiros para a Olimpíada Internacional de Matemática há 25 anos. Ele comenta que as instituições de ensino superior americanas levam em conta, além das olimpíadas, outras atividades extracurriculares dos seus candidatos. Motta destaca que já existem iniciativas que valorizam esse tipo de competição no Brasil, como o Programa de Iniciação Científica e Mestrado (Picme), que oferece bolsas para que estudantes universitários que se destacaram nas Olimpíadas de Matemática realizem estudos avançados na área, ao mesmo tempo da graduação. 

Além da premiação, a visibilidade e a experiência trazidas pelos torneios também são destacadas pelo professor. “O aluno que conquista medalhas está no topo. Alguns são convidados até para ingressar direto no doutorado”, conta. Em termos acadêmicos, o docente indica que as olimpíadas antecipam temas que, muitas vezes, seriam vistos apenas em graduação ou pós.

Mais de 50 medalhas


Gustavo Haddad Braga é um exemplo de que as olimpíadas contam muito na hora de entrar na universidade, especialmente em países como os Estados Unidos. Com mais de 50 medalhas em olimpíadas científicas – em áreas variadas, de física a astronomia, passando até mesmo por linguística –, o jovem de 18 anos foi aceito no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Harvard, Stanford, Yale e Princeton.


Inicialmente em dúvida entre Harvard e o MIT, o brasileiro optou pelo segundo e conseguiu uma bolsa pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para cursar a graduação. Antes de ir para os Estados Unidos, ele chegou a frequentar um semestre de medicina na USP, uma das três instituições brasileiras em que foi aprovado – além desta, também foi aceito no Instituto Militar de Engenharia e no Instituto Tecnológico de Aeronáutica.

O processo de seleção foi semelhante entre as instituições americanas, envolvendo o Scholastic Aptitude Test (SAT) – prova de admissão para o ensino superior –  redações, histórico escolar, cartas de recomendação e currículo. “Eles levam em conta absolutamente tudo o que o candidato fez, e as olimpíadas de que participei pesaram muito”, avalia Braga. Depois dessa fase, os melhores candidatos são chamados para uma entrevista na instituição de ensino.

Além das competições de conhecimento, o jovem também contava com outras atividades extracurriculares que chamaram a atenção das universidades americanas, como praticar natação – o que também lhe rendeu uma medalha -, e a criação de um programa de estudos no Objetivo, onde cursou o ensino médio, para preparar estudantes para olimpíadas científicas.

E Braga tem experiência para compartilhar. Foram seis competições internacionais: a primeira em 2008, na Coreia do Sul; a segunda no Azerbaijão, em 2009; no ano seguinte, participou de uma de astronomia na China e de física na Croácia; em 2011, outra de astronomia na Polônia e uma de matemática em Portugal, além de uma de física na Tailândia.

A primeira olimpíada de que participou foi regional, em uma universidade de São José dos Campos (SP), onde o jovem, natural de Taubaté, passou a maior parte da vida. Na época, Braga estava na 6ª série. A competição de matemática era voltada a estudantes da 7ª e 8ª séries, mas como ia bem na disciplina, uma professora sugeriu que se inscrevesse. Ele fez as provas e terminou em primeiro lugar. A partir daí, se dedicou a pesquisar e a se inscrever em várias olimpíadas, em diferentes áreas.

Mas o bom desempenho não é por acaso. Desde a 7ª série, Braga mantém uma rotina de cinco horas diárias de estudo. Ele conta que segue uma única regra no que diz respeito à vida acadêmica: jamais estudar na véspera de uma prova. E isso também conta para as competições. “Na época das olimpíadas eu desacelerava, pois o ideal é ficar descansado”, explica.


Diferencial


Não é apenas o currículo que ganha com as competições. O aprendizado propiciado pelas olimpíadas também são um diferencial na compreensão acadêmica do estudante. Para Braga, o ponto mais importante é que elas ensinam um modo diferente de ver as disciplinas, que vai além de decorar conteúdos, desenvolvendo o raciocínio lógico. “Tem que ter a base das matérias, mas ser capaz de elaborar explicações diferentes para determinados fenômenos. As provas exploram áreas que não são vistas na escola”, argumenta.


Aproximar alunos do ensino fundamental e médio do ambiente universitário também é um benefício dos torneios apontado por Braga. “Durante os treinamentos, assistíamos a aulas em faculdades, tínhamos contato com os professores, e para as olimpíadas de física, por exemplo, podíamos utilizar equipamentos avançados nos laboratórios”, relata. Para o jovem, as competições foram uma forma de compreender melhor o que ele gostaria de fazer profissionalmente. “Se não fosse pelas olimpíadas, estaria ainda mais confuso. Porque você sabe que gosta de química no colégio, mas como saber se quer trabalhar com isso?”, indaga o brasileiro.

Braga ainda não tem certeza a respeito da área para a qual se dirigirá no MIT, pois nas universidades americanas, o estudante só escolhe a profissão em que vai se formar por volta do segundo ano de curso, após passar por diversas disciplinas gerais, e no instituto é possível optar por duas formações. Até o momento, o jovem cogita engenharia elétrica e física. Entre muitas dúvidas, o estudante tem uma certeza: quer voltar ao Brasil quando terminar os estudos. “Acho que posso ter um impacto positivo no País. Além disso, sinto falta dos brasileiros. É inevitável criar raízes com o lugar onde viveu”, declara.

Conheça a seguir a história desses campeões e a opinião de especialistas sobre a importância das competições científicas para revelar novos talentos, jovens que num futuro bem próximo podem alavancar a pesquisa no Brasil e inspirar mudanças no modelo de ensino.


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