http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/1256625-as-vidas-que-deixamos-de-viver.shtml
contardo calligaris
04/04/2013 - 03h00 - Jornal A Folha de São Paulo
Quase sempre, quando encontramos alguém
que nos encanta, começamos por lhe contar nossa vida e expor nossos projetos
--pois é possível que, para um casal, compartilhar planos seja mais importante
do que cada um conhecer e entender o passado do outro.
Em suma, a
gente se apresenta ao outro como numa entrevista de emprego, dizendo o que
fizemos e o que esperamos. Afinal, somos uma mistura da vida vivida com o
futuro sonhado, não é?
Acabo de ler
o último livro de Adam Phillips, psicanalista inglês que é um dos autores que
mais me estimulam a pensar: "Missing out: In Praise of the Unlived
Life", (Farrar, Straus and Giroux) (perder: elogio da vida não vivida
--"missing out" é perder no sentido em que você chega atrasado na
festa e pergunta: perdi alguma coisa?).
Justamente,
à história passada e aos sonhos Phillips acrescenta mais um ingrediente que nos
define: o conjunto das vidas que deixamos de viver --porque não foi possível,
porque alguém nos impediu, porque ficamos com medo, porque escolhemos outro
caminho, porque a sorte não quis.
Algumas
vidas não vividas são alternativas descartadas pela inércia da nossa história
ou porque o desejo da gente é dividido, e escolher implica perder o que não
escolhemos.
Outras são
acasos que não aconteceram (é possível passar pela vida sem encontrar ninguém
ou encontrando muitos, mas todos na hora errada).
Também, mais
dolorosamente, as vidas não vividas são caminhos pelos quais não ousamos nos
enveredar (na inscrição para o vestibular, na decisão de voltar de um lugar
onde teríamos começado outra vida, nos conformismos de cada dia).
Essas vidas
não vividas podem nos enriquecer ou nos empobrecer. Elas nos enriquecem quando
integram nossa história como tramas alternativas de um romance, incluídas no
rodapé da edição crítica.
Melhor
ainda, como tramas alternativas às quais o autor renunciou, mas que ele se
esqueceu de apagar inteiramente: o herói não vai mais para África no capítulo
dois, mas eis que, no capítulo sete, aparece um africano que ele conheceu
antes, mas que não se entende de onde vem, a não ser que a gente leia aquela
parte do dois que foi abandonada.
Aqui, um
conselho: é útil frequentar as vidas não vividas de nossos parceiros (para
evitar surpresas desnecessárias, como a chegada de personagens que não fazem
parte nem do passado nem dos sonhos do outro, mas das vidas às quais ele achava
ter renunciado).
Agora, as
vidas não vividas podem sobretudo nos empobrecer, levando-nos a viver num
eterno lamento por algo que não nos foi dado, que perdemos ou do qual
desistimos. Esse, aliás, é o futuro que estamos preparando para nossas
crianças.
Uma das
razões pelas quais as vidas não vividas condenarão as crianças de hoje à
sensação de desperdício é a popularidade do mito do potencial. Alguém não está
se tornando tudo o que esperávamos? Que pena, com o potencial que ele tinha...
De onde vem
a ideia de que nossas crianças seriam dotadas de disposições milagrosas e que o
maior risco seria o de elas desperdiçarem o que já é seu patrimônio?
O potencial
das crianças modernas tem duas propriedades: ele é genérico (ou seja, não é
fundado em nenhuma observação específica, é uma espécie de a priori: criança
tem grande potencial, em tudo) e ele deve dar seus frutos espontaneamente, sem
esforço algum da parte da criança.
Nossos
rebentos são dotadíssimos para esporte, desenho, criação, música, ciência,
estudo, línguas estrangeiras etc. E, se os resultados escolares forem péssimos,
as crianças nunca são preguiçosas, elas só estão desperdiçando seu
"incrível potencial". Há uma cumplicidade
de todos ao redor dessa ideia.
Os pais
querem que as crianças sejam tudo o que eles não conseguiram ser na vida. Pior,
eles querem que as crianças cumpram essa missão sem esforços, por milagre (o
milagre do "potencial").
Os
professores acham no potencial uma maneira maravilhosa de assinalar que fulano
é medíocre sem atrapalhar o sonho dos pais da criança, os quais podem seguir
pensando que seu filho leva notas infernais, mas vale a pena insistir (e pagar
a escola mais cara) porque ele tem um potencial extraordinário.
Quanto aos
filhos, acreditar em seu próprio "potencial" é uma maneira barata
para se sentir especial, apesar de resultados pífios. Problema: na hora,
inevitável, do fracasso, quem aposta no seu potencial conhece a sensação
especialmente dolorosa de ter traído a si mesmo (ou seja, ao seu
"potencial").

Contardo
Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor.
Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e foi professor de antropologia
médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre cultura,
modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e
ordinárias). Escreve às quintas na versão impressa de "Ilustrada".
Adorei Claudia! ;)
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