Superdotação, Asperger (TEA) e Dupla Excepcionalidade por Claudia Hakim

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terça-feira, 29 de março de 2011

Continuação do texto da Susana Perez...

Uma proposta de classificação dos fantasmas


Diversos autores têm apontado os nossos fantasmas – os mitos e crenças gerados a partir das causas acima enumeradas. Para fins didáticos, classifiquei alguns deles em sete categorias:

a) mitos sobre constituição, que vinculam características e origens;

b) mitos sobre distribuição, que adjudicam distribuições específicas às AHs;

c) mitos sobre identificação, que buscam omitir ou justificar a desnecessidade desta identidade;

d) mitos sobre níveis ou graus de inteligência, originados de equívocos sobre este conceito;

e) mitos sobre desempenho, que repassam expectativas e responsabilidades descabidas e irreais;

f) mitos sobre conseqüências, que associam características de ordem psicológica ou de personalidade não vinculadas a este comportamento; e

g) mitos sobre atendimento que, muitas vezes, são a causa da precariedade ou ausência de serviços públicos eficientes para esta população.


Passo, então, a descrever e analisar cada uma destas categorias, considerando sua importância para a implantação e implementação de políticas públicas que contemplem as PAHs e como forma de podermos detectar e enfrentar estes fantasmas.


(RE)Conhecendo os fantasmas

Mitos sobre constituição


Os mitos sobre constituição especulam sobre possíveis origens das AHs e característicasinatas a estas pessoas. Fundamentam-se no antagonismo entre as teorias geneticistas e as ambientalistas; na designação de determinados comportamentos que não são propriamente conseqüência das AHs, mas do entorno do sujeito e que podem afetar qualquer pessoa; nos rancores, ciúmes e preconceitos originados nos sentimentos que mobilizam a percepção da diferença comovantagem (ou desvantagem) ou ameaça; e na idéia de auto-suficiência associada à PAH.


1) As Altas Habilidades são uma característica exclusivamente genética.(EXTREMIANA, 2000; WINNER, 1998). A idéia de que as AHs devem-se exclusivamente a fatores biológicos é defendida pelas chamadas teorias geneticistas ou inatistas, lideradas principalmente pelos seguidores de Galton que, em 1869, analisou personalidades destacadas da época nas mais diversas camadas sociais e, verificando que seus filhos também tinham sido eminentes, chegou à conclusão de que a inteligência era herdada. As pesquisas ainda não conseguiram comprovar esta tese, embora se saiba que, com certeza, há uma carga hereditária. Gardner (2000) estima que esta carga esteja entre 30 e 70%, porém, calcular este índice implicaria a observação in vivo de um cérebro funcionando, o que é, por enquanto, totalmente inviável. Observações de profissionais que trabalham na área também indicam a existência de parentes diretos com AHs em até três gerações anteriores à do indivíduo com AHs observado[5], mas a influência do ambiente no desenvolvimento das AHs é hoje amplamente aceita pela maioria dos pesquisadores da área.


2) As Altas Habilidades são uma característica que depende exclusivamente do estímulo ambiental.(EXTREMIANA, 2000; WINNER, 1998). Em contraposição ao mito anterior, a idéia das AHs como resultado exclusivo do estímulo, do esforço e do trabalho duro, ou seja, do ambiente, que determinaria um caráter comportamentalista (em resposta a um estímulo) desta característica, também não tem sido comprovada. Por outro lado, o envolvimento com a tarefa, que é um dos componentes das AHs, é uma conseqüência delas enão uma causa. As pesquisas tendem a mostrar que ambos aspectos são importantes, já que, só a predisposição genética para as AHs, sem oportunidades para desenvolvê-las não garante a manifestação do comportamento de superdotação, assim como a estimulação e os ambientes favoráveis ao desenvolvimento das inteligências também não resultam na manifestação de AHs sem que haja uma elevada “capacidade acima da média” e um elevado índice de criatividade, como define Renzulli (1986).


3) Pais organizadores (condutores). (EXTREMIANA, 2000; WINNER, 1998). É bastante difundida a crença de que as pessoas com AHs são produto de pais organizadores que conduzem e regram suas vidas, levando-as a um desempenho excepcional. Segundo Extremiana (2000, p. 123) “os pais não ‘criam’ o superdotado, mas normalmente são as próprias crianças superdotadas as que empurram seus pais a oferecer-lhes um ambiente estimulante e enriquecedor”. Não obstante, há famílias que supervalorizam os filhos com AHs, exigindo deles, expondo-os e responsabilizando-os excessivamente, o que pode lhes trazer graves problemas emocionais.


4) A pessoa com altas habilidades é egoísta e solitária. (WINNER, 1998; SÁNCHEZ; COSTA, 2000). O egoísmo e a solidão são características do comportamento humano que podem ou não estar presentes nas PAHs e dependem de fatores como a educação familiar, suas próprias habilidades interpessoais e até do contexto em que elas vivem. A preferência por trabalhar sozinhas, bastante comum em pessoas com AHs, pode decorrer de seus interesses freqüentemente diferentes aos do seu grupo etário e, às vezes, de seus mecanismos de aprendizagem diferenciados que, muitas vezes, podem inviabilizar ou dificultar o trabalho em grupo. Porém, também não são raras as pessoas com habilidades de liderança, com uma interação social extremamente desenvolvida e grande preocupação com a injustiça e problemas como a pobreza, por exemplo.


5) O aluno com altas habilidades é “metido”, “sabichão”, “exibido”, "nerd", "CDF".(WINNER, 1998; SANCHEZ; COSTA, 2000). A avidez de conhecimentos ou saberes geralmente não aprofundados na sala de aula e o elevado grau de curiosidade levam estes alunos a possuir um acervo de informações bem superior ao dos colegas e inclusive dos próprios professores. Quando se discutem temas de seu interesse, costumam apresentar informações enriquecidas com dados obtidos em outras fontes ou, pelo contrário, indagar insaciavelmente por novas informações, o que geralmente incomoda e/ou atrapalha o ritmo da aula. Perante esses comportamentos, vistos negativamente pelo grupo ou pelo professor, são ridicularizados com epítetos deste tipo.


6) As pessoas com altas habilidades são fisicamente frágeis, socialmente ineptas e com interesses estreitos.(ALENCAR; FLEITH, 2001; HALLAHAN & KAUFFMAN, 1994, apudEXTREMIANA, 2000; GERSON; CARRACEDO, 1996). Este mito, baseado no estereótipo de PAH comumente veiculado pela mídia – uma pessoa magra, pálida, de óculos com lentes grossas, obsessiva e insociável – não é uma regra confirmada na prática. Assim como nas demais pessoas, as características físicas ou de personalidade variam de uma para outra; por serem de ordem genética ou decorrentes de condições ambientais, não se pode estabelecer qualquer associação específica com as AHs.

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