terça-feira, 23 de março de 2010

O problema da nomenclatura

A questão da superdotação já começa com um grande problema : a força do nome que caracteriza estas crianças. O nome escolhido para caracterizar estas crianças com habilidades acima da média, não é muito simpático. Soa, até mesmo, como um palavrão.

A questão da nomenclatura atribuída à esta questão tem sido um grande dilema, na comunidade da qual faço parte e atuo como moderadora, no Orkut,denominada "Pais de Superdotados". Eu mesma fico receosa em utilizar esta nomenclatura. Quando me perguntam porquê a minha filha pulou de série (ainda são poucos os que sabem que o menor também acabou de pular de série), antigamente, eu respondia porque ela era superdotada. Ninguém acreditava !

As pessoas estão muito acostumadas a ligar a superdotação à genialidade. A criança superdotada tem que ser genial, excepcional, compor músicas, ler com 2 anos, falar 10 idiomas, fazer cálculos absurdos e por aí vai.. Se ela for uma criança normal com muita facilidade de aprendizagem, ela não serve para ser caracterizada como uma criança superdotada !

Meus filhos não são macaquinhos de circo. Eles teriam perfeita capacidade de serem treinados para ir na frente de uma rede de televisão e discorrer sobre todas as capitais do mundo, aonde ficam, e falar o nome dela em quatro idiomas, desde que tinham 03 anos. Mas, aonde isto iria levá-los ? O que eles iriam ganhar com isto ? E nós, a sociedade.. o que isto iria acrescentar às nossas vidas ?

Acontece que, se nós, pais de superdotados, usamos a expressão superdotados, para caracterizar os nossos filhos, somos vistos como arrogantes ou até mesmo prepotentes. Não digo isto só por mim, ou pelo meu marido. Digo isto, pelos relatos de vários pais que fazem parte da comunidade a que me referi acima.

Pois bem, para não soar como arrogante ou prepotente, e para ficar mais simpática ao meu interlocutor, passei a adotar, num segundo momento (quando eu já tinha descartado a palavra superdotado) a expressão "portadora de altas habilidades".

Piorou !!! Numa conversa com uma mãe da escola dos meus filhos, ao dizer que a minha filha era portadora de altas habilidades e por isto precisava de uma educação especial, a mãe olhou para mim com uma cara de tipo : " O que será que a filha dela tem.. coitada " ! Por favor, saibam que eu não tenho, absolutamente, nada contra crianças que apresentam outras necessidades educacionais especiais, pelo contrário, sou super a favor e partidária da luta por estas crianças, mas senti que, ao adotar a expressão "portadora de altas habilidades" eu também não estava sendo feliz ao tentar explicar como eram os meus filhos.

Por fim, com todos estes acontecimentos, resolvi dizer que os meus filhos têm facilidade de aprendizagem. Quando as pessoas ouvem isto, eu tenho a impressão de que elas pensam : " Tá bom. Meu filho também tem facilidade de aprendizagem e não pulou de ano".

Muitos pais, ao descobrirem que a minha filha tinha pulado de série na escola dela, vieram me perguntar COMO EU CONSEGUI QUE ELA PULASSE DE ANO NA ESCOLA !!! Como se isto, fosse uma coisa que dependesse única e exclusivamente de mim. Tipo assim : " Sra. Diretora. Preciso lhe informar que eu gostaria muito que a minha filha pulasse de série. Obrigada !'..rs..

Aprendi com a experiência que, para bom entendedor meia palavra basta. Ao dizer que meus filhos têm facilidade de aprendizagem e por isto precisaram pular de ano, quem for bom entendedor vai associar a questão à alguma coisa mais especial. Aqueles que nao o forem.. sinto muito !

Os estudiosos do tema, psicólogos e psico pedagogos, atualmente, usam o termo portadores de altas habilidades para caracterizar estas crianças.

A nossa lei de diretrizes básicas da educação, de 1996, contudo, continua a utilizar o termo superdotados, na área de educação especial, para denominar esta categoria de alunos com necessidades educacionais especiais e justificar a necesidade de um atendimento adequado às necesssidades diferenciadas que apresentam.

Tem aqueles que preferem se referir à estas crianças como habilidosas, talentosas, bem dotadas, "nerds", CDF´s, enfim..

Nos EUA, a questão da superdotação é super tranquila. Lá, é muito comum a a identificação destas crianças partir da própria escola, sendo que todas as escolas americanas têm uma política para trabalhar com estas crianças, de acordo com o nível de sua superdotação. Eles possuem programas específicos de enriquecimento, classes extra-curriculares, programas de aceleração de série, classes específicas para os mais bem dotados, etc. O que não lhe falta é uma proposta pedagógica. Enfim, o que mais me chama a atenção ali, é que o termo que eles adotam para estas crianças, tidas como "gifteds" (na tradução para o português "presenteado, dom") soa como uma coisa tão natural e é tão bem aceita pela sociedade, que acho que seria o caso da gente, aqui no Brasil, repensar sobre esta questão.

Eu sempre digo aos meus filhos que eles são muito abençoados e dotados de um (alguns, na verdade, vários, se formos pensar bem) dom, e, que eles precisam agradecer muito a Deus por terem sido escolhidos para terem este dom e que saibam, no futuro, usar este dom em seus proveitos e também (penso eu) em prol da humanidade !

5 comentários:

  1. Parabéns Cláudia!
    Penso ser da máxima importância as mães e também toda a sociedade tributarem melhor atenção e cuidados especiais às criança superdotadas. Se bem educadas e estimuladas são nossa maior esperança de um mundo melhor.

    Tenho lido bastante sobre a nova geração que está vindo a este plane
    ta - que muitos chamam de crianças azuis - pelo alto grau de evolução e capacidade.
    Muita energia e luz na condução de seu filho!
    Que a nova geração possa realizar aquilo que sonhamos em 60-80 - anos que foram dourados, que muito contribuiram pela sociedade mais justa que temos hoje, mas que precisam do aporte desta nova geração luminosa que vem por aí.
    bj.
    vera

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  2. Obrigada, Vera, pela sua atenção e carinho na escolha das palavras ! Infelizmente, acabamos sendo nós, operadores do direito, os que mais lutamos por um Brasil melhor !!!

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  3. ESSE PROBLEMA DA NOMENCLATURA,É MUITO SÉRIO,FUI A REUNIAO DA ESCOLA DO MEU FILHO,QUE ESTÁ NUMA CLASSE ESPECIAL P/ CRIANÇAS C/ FACILIDADE P/ APRENDER;E AS EDUCADORAS QUE CONDUZIRAM A REUNIAO;FIZERAM A SEGUINTE AFIRMAÇAO:SEUS FILHOS SAO MUITO INTELIGENTES,MAS NAO TEM NENHUM SUPER,SUPER NESTA CLASSE.OLHANDO P/ MIM, POIS EU DISSE à ELAS QUE DE ACORDO COM UMA AVALIAÇAO PROFISSIONAL SÉRIA,ELE FOI CONSIDERADO SUPERDOTADO,MAIS UMA VEZ SE CONFUNDE SUPERDOTAÇAO E GENIALIDADE.

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  4. Marta. Espere sair o seu laudo por escrito e você entrega uma cópia xerográfica para a escola (o orignal fica contigo). Com base nele, vc prova a necessidade da escola dar uma educação especial ao seu filho. Pode ser que o Junior não tenha o perfil acadêmico e a superdotação dele, se for somente a espacial pode não aparecer muito em sala de aula. Mas, se ficar comprovado que o Junior tem superdotação acadêmcia, a escola é obrigada a dar uma educação especial a ele, achando ela, ou não que ele é um gênio. De fato, as pessoas confundem superdotação com genialidade. Por isto é que nós, pais, temos sempre que fazer o papel de quem leva o conhecimento para a escola. Outro conselho que te dou : Compre um exemplar do livro da Maria Lúcia Sabatela, que eu citei aqui no blog e dê de presente para a escola. Será um dos melhores investimentos que vc pode fazer por ele...

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  5. O problema da nomenclatura que a Cláudia ilustrou muito bem acaba atrapalhando o atendimento aos superdotados devido ao preconceito que a palavra "Superdotado" gera.
    A superdotação é bem comum, está cheio de superdotados por aí e ninguém percebe. ESTATISTICAMENTE, TODA ESCOLA DEVE TER VÁRIOS ALUNOS SUPERDOTADOS. O que é raro encontrar é o prodígio e o gênio. Veja as definições segundo o site do CONBRASD:
    - A habilidade superior, a superdotação, a precocidade, o prodígio e a genialidade são gradações de um mesmo fenômeno, que vem sendo estudado há décadas em diversos países.
    - Chamamos de precoce a criança que apresenta alguma habilidade específica prematuramente desenvolvida em qualquer área do conhecimento, seja na música, na matemática, na linguagem ou na leitura.
    - Utilizamos o termo “criança prodígio” para sugerir algo extremo, raro e único, fora do curso normal da natureza. Um exemplo seria Wolfgang Amadeus Mozart, que começou a tocar piano aos três anos de idade. Aos quatro anos, sem orientação formal, já aprendia peças com rapidez, e aos sete já compunha regularmente e se apresentava nos principais salões da Europa.
    - Mozart, assim como Einstein, Gandhi, Freud e Portinari, entre outros mestres, são ainda exemplos de gênios, termo este reservado para aqueles que deram contribuições extraordinárias à humanidade. São aqueles raros indivíduos que, até entre os extraordinários, se destacam e deixam sua marca na história.
    - A s habilidades apresentadas pelas pessoas aqui citadas, tenham sido elas precoces, prodígios ou gênios podem ser enquadradas em um termo mais amplo, que é a superdotação ou altas habilidades.

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