terça-feira, 2 de maio de 2017

Sentimento de Inadequação

Sentimento de Inadequação

Adriana Vazzoler-Mendonça*


Na vida podemos nos sentir inadequados. Todos os dias pode haver motivos pelos quais nos frustramos, sendo mal interpretados por alguém. Não é raro chegarmos a um evento e constatarmos que nossa roupa está inadequada, ou dizermos algo a alguém que lhe cai mal e nos sentimos culpados por isso. Esses tipos de equívocos fazem parte de nossa vida em sociedade. O Sentimento de Inadequação (SI) foi definido por Torres (2008, p.14) como “o indício de um modo de existência no qual se constata um estado de diferença ou peculiaridade, independentemente das reações assumidas a partir dessa constatação”. O SI, quando crônico, pode levar a pessoa a manifestar um sem-número de fenômenos como estresse, depressão, baixa autoestima, perda da autoconfiança, transtornos de ansiedade e até o suicídio.

O Sentimento de Inadequação é decorrente da comparação que, como diz Torres (2011, p.181), é indevida, porém inevitável. Comparamos o tempo todo, não se podendo afirmar que a comparação seja inerente ao ser humano ou que seja um construto da vida em sociedade (TORRES, 2011, p.181). O mal estar do SI é gerado pela incoerência do que se pensa e acredita com os resultados observados. A pessoa sente-se incomodada por não estar confortável na vida, passando a questionar se suas convicções estão mesmo corretas ou se ela não deveria ser como é.

Os motivos pelos quais as pessoas podem se sentir inadequadas são infinitos, mas são basicamente de dois tipos: os “de dentro” e os “de fora”. Os “de fora” todo mundo vê, como, por exemplo, aparência física: é comum pessoas se sentirem inadequadas porque são muito altas ou muito baixas, muito gordas ou muito magras, pele desta ou daquela cor. Crianças e adolescentes podem ser considerados inadequados por motivos como esses e mais tantos outros como nome, sotaque, corte do cabelo, aparelho para audição, estilo de roupas etc. Qualquer característica diferente para um grupo pode ser motivo de bullying e violência contra a pessoa. O SI surge no sujeito que se sente errado perante os padrões de um grupo em que deseja estar inserido.

Figura 1
Fonte: Barrionuevo, 2016

Os motivos “de dentro”, por sua vez, ninguém vê. Esse tipo decorre do julgamento do sujeito sobre o que ele mesmo considera certo e errado para a própria vida, e não do que os outros pensam. Por exemplo: uma menina que se torna mãe sem o desejar, pode se sentir inadequada porque ela não está correspondendo às suas próprias expectativas. Um idoso que precisa usar um andador pode se sentir inadequado porque ele queria estar saudável e andando com facilidade. Mesmo que se diga para a mãezinha “Qual o problema de você ser mãe nova?” ou para o idoso “Qual o problema de ter que usar um andador?”, isso não reduz o SI e ainda pode piorar a situação, pois eles podem interpretar que não é adequado sentir-se inadequado.

O psicólogo César Borella (2017) sugere que o Sentimento de Inadequação gera o Sentimento de Inferioridade. E, para nos livrarmos deste, temos que ter um olhar honesto para nós mesmos, objetivando diminuir as barreiras erguidas pelo Sentimento de Inferioridade, como autopiedade, vitimização, agressividade, falta de objetivos, autocrítica exagerada e acomodação (BORELLA, 2017).

Em casos mais severos, indivíduos com SI podem passar a evitar interação social com medo de serem rejeitados ou humilhados. Segundo Meldau (2017), esse comportamento pode levar à Síndrome da Ansiedade Esquiva (ou Transtorno da Ansiedade Esquiva ou Transtorno da Personalidade Ansiosa), um transtorno de personalidade em que o sujeito passa a evitar contatos sociais e situações que ele imagina que possam lhe causar embaraço ou ansiedade. As manifestações clínicas desta síndrome podem envolver sensibilidade exacerbada a críticas, isolamento social voluntário, timidez ou ansiedade extrema em situações que envolvem interação social, evitação de contato físico, profunda baixa autoestima, desconfiança, fantasia para explicar a realidade, dentre outras (MELDAU, 2017).

As emoções autênticas naturais do ser humano são a alegria, a tristeza, o medo e a raiva (LOPES, 2017). Elas não são exclusivas dos seres humanos, podendo ser observadas em animais como cães, gatos e cavalos. As emoções nos ajudam a tomar decisões, a nos proteger e a superar desafios. Contudo, há emoções que não são funcionais, posto que resultam em mal estar. No SI estão envolvidas as emoções de inveja, ciúme e vergonha, que são derivadas do medo, do temor de não sermos aceitos por nossas expressões no mundo. Na inveja e no ciúme, olhamos o outro com crítica; na vergonha, o alvo da crítica somos nós.

Aplainamento da Subjetividade e Aplainamento da Objetividade

Mas o SI não é de todo ruim, dado que pode convidar o sujeito ao crescimento. Para Piaget (PILETTI e ROSSATO, 2011), o homem pensa e age para satisfazer a necessidades, superar desequilíbrios e adaptar-se a novas situações do mundo em que está inserido. O SI é, neste contexto, um alarme, um aviso de que o sujeito está em desequilíbrio e, portanto, está diante de uma oportunidade de aprendizado e desenvolvimento. O processo de adaptação à situação, para Piaget, assume duas formas básicas: assimilação, na qual a pessoa integra um novo dado às estruturas psíquicas que já possui, e acomodação, quando essas estruturas psíquicas não são suficientes e a pessoa tem que construir novas. Assim, na assimilação, o sujeito modifica o objeto para poder entendê-lo e, na acomodação, o próprio sujeito é que se modifica para adquirir um novo conhecimento. A organização psíquica, por sua vez, articula esses processos de maneira constante e progressiva, logo, a pessoa constrói e reconstrói sua estrutura cognitiva, tornando-se mais apta a manter seu equilíbrio (PILETTI e ROSSATO, 2011).

Diante do sentimento de inadequação, seja ele causado pelos julgamentos vindos dos outros, de nós mesmos ou de ambas as partes, nós adotamos posturas para consertar a situação e, para isso, oscilamos entre tentar nos consertar (acomodação) e tentar consertar o mundo (assimilação).

Figura 2
Fonte: Chris

Tentamos nos consertar quando nos julgamos culpados, errados, maus, feios, então nós é que temos que melhorar e mudar a qualquer custo, crendo que assim seremos aceitos e amados pelo mundo. Tentamos consertar o mundo quando julgamos que os outros, a sociedade, os familiares, os colegas é que são ignorantes, errados, maus, feios, que não nos entendem e por isso não conseguem nos aceitar e amar como somos.

Figura 3
 Fonte: Twitter

Estas tentativas de Aplainamento da Subjetividade (AS) definindo o movimento de consertar a si próprio, ou de Aplainamento da Objetividade (AO), que é o movimento de consertar o mundo (Torres, 2008) são, no fundo, respectivamente, violência contra nós e contra os demais.

Empatia

Tratar-se empaticamente pode ser explicado como reconhecer que se está fazendo o melhor que se pode com os recursos que se tem no momento e honrar esse lugar de onde o ser se manifesta no mundo. Rosenberg (2006) demonstra que, para desenvolvermos uma atitude não-violenta conosco mesmos e com os outros, temos que considerar quatro etapas: 1. Observar o que está acontecendo dentro de si de fato, sem julgamento; 2. Identificar, nomear o que se está sentindo; 3. Tomar consciência das reais necessidades que lhe fizeram sentir daquela maneira; 4. Declarar e pedir o que deseja ou necessita de forma concreta. Estas quatro etapas valem tanto para nossa relação com os outros como para nossa relação conosco mesmos.


Senso de Inadequação

Uma terceira postura diante do SI seria o desenvolvimento do Senso de Inadequação (SsI) (TORRES, 2008). O conceito do SsI sugere que o indivíduo acolha empaticamente suas diferenças em relação ao meio em que se encontra, abrindo mão de suas expectativas de conformidade com os referenciais alheios e também com os seus próprios que não reflitam sua autenticidade. Seria um reconhecimento de ser um indivíduo único e de abdicar de funcionar na dualidade, na polaridade do bem/mal, certo/errado, ajustado/desajustado, consciente de que poderá haver desafios, obstáculos, angústias, como em toda situação na vida. A vantagem é que o indivíduo estaria coerente com os seus valores, o que poderia conferir-lhe leveza, humor e criatividade nas relações, em vez da angústia vivenciada quando se acredita ser inadequado.


Referências

BARRIONUEVO, R. O CEO, os Gerentes e o Elefante na Sala de Reunião. Site LinkedIn.com. 01 fev 2016. Disponível em Acesso em 18 abr 2017.

BORELLA, C. A. S. Livre-se dos sentimentos de inferioridade. Disponível em   Acesso em 29 mar 2017.

CHRIS. O legado universal e eterno de Charles Schulz. Site Achados da Chris. Disponível em Acesso em 18 abr 2017.

LOPES, R. B. As Emoções. Disponível em < https://psicologado.com/psicologia-geral/introducao/as-emocoes> Acesso em 30 mar 2017.

MELDAU, D. C. Síndrome da Ansiedade Esquiva. Disponível em Acesso em 29 mar 2017.

PILETTI, N.; ROSSATO, S. Psicologia da aprendizagem: da teoria do condicionamento ao construtivismo. São Paulo: Contexto, 2011. p. 65-80.

ROSENBERG, M. B. Comunicação não-violenta. Técnicas para aprimorar
relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.

TORRES, A. R. R. Sentimento de Inadequação: Estudo Fenomenológico-Existencial. 2008. 153 f. Dissertação, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas-SP.

TORRES, A. R. R. Sentimento de Inadequação, prática psicológica e contemporaneidade. In: ANGERAMI, V. A. (org.). Psicoterapia e Brasilidade. São Paulo, Cortez, 2011.

TWITTER. "X-Men 2" (2003). Site Twitter Universo X-Men. Disponível em Acesso em 18 abr. 2017.


*Adriana Vazzoler-Mendonça está no Facebook e LinkedIn. Coach para Diversidade, Inclusão e Acessibilidade, Treinadora de Neurofeedback e formanda em Psicologia em Campinas-SP. adriana.italia@gmail.com











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