quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Gênio bandido - Quando a superdotação é usada para o mal ...



Quem é Ross Ulbricht, o nerd americano de 29 anos que arrecadou US$ 1,2 bilhão ao criar um site que vendia, pela internet, drogas e outros produtos proibidos

Natália Mestre


MENTE CRIMINOSA

Ulbricht: aluno aplicado que não bebe e não fuma, mas que fez fortuna ao vender cocaína e ecstasy 

Até alguns dias atrás, qualquer pessoa, de qualquer parte do mundo, poderia acessar uma página de internet chamada Silk Road e se deparar com uma lista peculiar de produtos acessíveis a partir de meia dúzia de cliques. Como uma espécie de eBay de substâncias ilegais, a Rota da Seda (nome do site em português) vendia passaportes falsos, equipamentos para espionagem, armas, munição e outros milhares de itens destinados a abastecer malfeitores. A maioria dos internautas, porém, estava atrás de outro tipo de mercadoria. Na categoria “drogas”, de longe a mais requisitada, encontrava-se uma variedade que provavelmente nenhum cartel internacional seria capaz de proporcionar: maconha, cocaína, ecstasy, heroína, remédios controlados e toda sorte de psicodélicos e estimulantes que um viciado desejaria encontrar. Em vez de uma superorganização mafiosa, o Silk Road foi criado e era controlado por uma única mente criminosa, o americano Ross William Ulbricht, 29 anos, preso no dia 2 de outubro por agentes do FBI, a polícia federal americana.


O governo americano demorou três anos para desvendar os
crimes cometidos por Ulbricht


Na semana passada, à medida que informações da vida particular de Ulbricht eram reveladas, os americanos descobriram que estavam diante de uma história extraordinária. Mais do que um meliante desprezível, Ulbricht é um gênio ardiloso que driblou as autoridades durante três anos e que, com seu negócio de vendas de produtos ilegais pela internet, movimentou nesse período a quantia de US$ 1,2 bilhão. Para efeito de comparação, o valor equivale a quase todo o faturamento anual de uma gigante como Alpargatas, a fabricante das sandálias Havaianas. Para os amigos e os pais de Ulbricht, que não faziam a menor ideia do que ele fazia, trata-se de um típico bom moço: amoroso com a família, caloroso com os colegas. Não fumava, bebia raramente e tinha relacionamentos apenas virtuais (era um frequentador assíduo do site de encontros Singles Bee). Na escola, sempre foi o número 1 da classe e, com talento para números, concluiu o curso de engenharia e ciência de materiais na Faculdade do Texas. Apesar da fortuna acumulada, o jovem morou com os pais em Austin, no Texas, até junho deste ano, quando se mudou para São Francisco, na Califórnia, dividindo o apartamento com mais duas pessoas.


Ao vasculhar o histórico do Silk Road, a polícia descobriu no fórum de debates do site – sim, havia um aberto a clientes – que a motivação de Ulbricht não era apenas dinheiro ou a apologia pura e simples às drogas. Diversas vezes ele escreveu que o “Estado não tem o direito de interferir da vida dos indivíduos” e que o “governo não pode cercear a liberdade total do cidadão”. Seus fregueses adoravam considerações desse tipo – e muitos passaram a tratá-lo como um guru. Com cerca de 150 mil usuários no mundo, o Silk Road era baseado no sigilo de seus usuários e suas operações. Para operar no mercado negro virtual, Ulbricht adotou o pseudônimo de Dread Pirate Roberts, personagem do romance “A Princesa Prometida”, escrito por William Goldman em 1973, e se autodeclarava “capitão do navio”. Há tempos na mira do FBI, a chave para desmantelar o esquema foi a localização do servidor utilizado para hospedar o site principal. Depois disso, foi só Ulbricht se logar no Silk Road em um cibercafé de São Francisco para a polícia conseguir rastreá-lo. Além de coordenar as atividades clandestinas do site, ele foi acusado pela polícia de ter encomendado dois assassinatos de ex-colaboradores que ameaçaram denunciá-lo.


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MENTE CRIMINOSA
Ulbricht: aluno aplicado que não bebe e 
não fuma, mas que fez fortuna ao vender cocaína e ecstasy 


O que chama a atenção na história de Ulbricht é o fato de ele ter driblado as autoridades durante tanto tempo. Se o governo de Barack Obama é capaz de espionar e-mails trocados por uma chefe de Estado como Dilma Rousseff e bisbilhotar computadores de uma gigante como Petrobras, como é possível ter demorado tanto tempo para desvendar os crimes cometidos na internet por um cidadão americano que atuava dentro de seu próprio país? “O Ulbricht montou um esquema muito difícil de ser descoberto”, diz Daniel Lemos, presidente da Real Protect, empresa especialista em segurança na internet. “O site só estava disponível por meio da rede Tor, que garante a proteção da identidade dos seus usuários, e os seus servidores estavam espalhados por vários países.” Além de estar escondido na chamada “deep web”, a internet profunda, o portal realizava as suas operações utilizando a Bitcoin, a moeda virtual criptográfica que funciona sem uma entidade monetária central. Cartões de crédito e PayPal não eram aceitos, dificultando ainda mais qualquer possibilidade de rastreamento. Coisa de gênio.  


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