terça-feira, 15 de outubro de 2013

Alunos "fora da elite" se destacam na melhor escola de administração do país



SABINE RIGHETTI


Vários fatores diferenciam Ricardo da Rocha Rodrigues, 20, dos seus colegas de administração pública da FGV (Fundação Getulio Vargas). Entre eles, as notas: ele é um dos melhores alunos.


Ricardo da Rocha Rodrigues, 20, de Carapicuíba, está no 2º ano da FGV
Ricardo da Rocha Rodrigues, 20, de Carapicuíba, está no 2º ano da FGV
Karime Xavier/Folhapress


Ricardo também tem um perfil peculiar na faculdade conhecida por formar estudantes de elite: ele é filho de diarista e mora em Carapicuíba, na Grande São Paulo.

Ele é um dos raros alunos da FGV que vieram de escola pública e, sem ajuda de ninguém e de nenhuma ONG, entrou no curso de administração pública na faculdade -considerada a melhor escola de administração do país no RUF 2013 (Ranking Universitário Folha).



Ele está no 2º ano, tem bolsa integral de estudos (concedida aos primeiros colocados) e também recebe alguns auxílios, como a chamada bolsa material escolar. A mensalidade custa quase R$ 3.000.

Para ser aprovado no vestibular, ele estudou sozinho com base em material que comprou em banca de jornal.

Filho de pernambucanos que vieram a São Paulo em um pau-de-arara, ele viu sua família se estabelecer na região metropolitana da capital. A mãe é diarista, o pai é comerciante. Na sua casa moram sete pessoas.

Em uma realidade tão distante da elite, Ricardo ficou sabendo da FGV em um folder de propaganda.

Ricardo conta que resolveu prestar o vestibular porque o curso tem tudo a ver com o que ele sempre quis fazer. "Quero trabalhar no governo para mudar a realidade do país", afirma.

Seu "bixo", Reginaldo Gonçalves, 18, aluno do 1º ano da FGV, segue a mesma trajetória. Morador de Itaquera, zona leste de São Paulo, é filho de professores da rede pública e ficou sabendo da FGV pela internet.

Nunca tinha passado nem na frente do prédio da faculdade, que fica a poucas quadras da avenida Paulista. "Mas meu pai conhecia o prédio porque morou num cortiço aqui perto", diz.


Quando decidiu prestar o vestibular para a FGV, enquanto ainda estudava em uma escola técnica na Cohab de Itaquera, conta, as pessoas "estranharam".

"Um dos meus professores achou esquisito. A FGV é conhecida por formar elite e pessoas de classe média alta", lembra Reginaldo.

Ao ser aprovado, com bolsa integral, comemorou. "Mas fiquei receoso porque a realidade é diferente. A escola tem boa infraestrutura, mas o medo era sobre como seria recebido."

COLEGAS RICOS

Hoje, ele se sente incluído, diz, mas conta que estranha algumas conversas pelos corredores acadêmicos da FGV.

"Às vezes escuto alunos falando sobre lugares que a gente só vê na TV, sabe?"
De acordo com Leda Maria Oliveira Rodrigues, da Faculdade de Educação da PUC-SP, a diferença social pode assustar mais do que a diferença de bagagem intelectual em casos como esse.

"Quem é da periferia e quem é da elite de São Paulo têm realidades completamente distintas, que talvez nunca tenham se cruzado."

As diferenças são, mesmo, muitas. A começar pelo modo como os alunos chegam ao curso. Enquanto a maioria dos alunos da FGV usa os próprios carros, Ricardo e Reginaldo gastam até duas horas de trem e de metrô.

Para a FGV, essa mescla de realidades é positiva.

"Isso enriquece a discussão na sala de aula, ainda mais em um curso que visa formar gestores públicos", ressalta Marco Antonio Carvalho Teixeira, vice-coordenador da graduação em administração da FGV.

NO FUTURO

Os dois futuros administradores públicos da periferia sonham em mudar a realidade que conhecem tão bem.

Ricardo já trabalha na própria FGV, em um banco de microcrédito para pessoas de baixa renda que querem iniciar um empreendimento.

Reginaldo sonha em ser político. Se fosse, o que mudaria em Itaquera?

"Traria escolas e universidades para a região. Isso descongestionaria as vias de acesso a São Paulo."

Ele também investiria em lazer. "Muitos moleques ficam o dia todo à toa na rua e chegam à criminalidade."

Isso aconteceu com alguns dos seus colegas de infância de Itaquera, diz e silencia. Ele não quis falar sobre isso.



Reginaldo Gonçalves, morador de Itaquera, 18, é aluno do 1º ano de administração pública da FGV
Reginaldo Gonçalves, morador de Itaquera, 18, é aluno do 1º ano de administração pública da FGV
Karime Xavier/Folhapress


Aluno com alto desempenho em escolas públicas pode se 'autoexcluir'

 


Um dos maiores desafios enfrentados no caminho ao ensino superior pode estar no próprio estudante. É a chamada "autoexclusão".

Isso acontece quando a pessoa deixa de tentar algumas oportunidades por se sentir naturalmente excluída. Por exemplo, um estudante de escola pública (tida como ruim) que acaba não prestando o vestibular para uma boa universidade.

"Muitas vezes o estudante até tem preparo, pois não é toda escola pública que é fraca. Mas ele acaba se sentindo socialmente excluído", explica Leda Maria Oliveira Rodrigues, da Faculdade de Educação da PUC-SP.

"É como se eles pensassem: tal faculdade não é para mim", comenta Marco Antonio Carvalho Teixeira, vice-coordenador da graduação em administração da FGV.

Esses alunos acabam nem fazendo o vestibular. Se fazem e são aprovados, não aparecem na matrícula.

Foi o caso de Reginaldo Gonçalves. Quando viu que foi aprovado na FGV e que teria bolsa de estudos, ele não foi à fundação porque achou que teria de pagar a matrícula, de quase R$ 3.000.

"A FGV ligou em vários lugares atrás de mim, até me achar na igreja. Então me explicaram que eu não precisaria pagar nada", conta.

De acordo com ele, o valor da matrícula equivale à renda mensal da sua família.

"Uma amiga minha que queria fazer direito nem prestou a prova da FGV", diz ele.

BUSCANDO TALENTOS

As universidades de qualidade conhecem bem os sintomas da autoexclusão, tanto que estão buscando alternativas para evitá-la.

A própria FGV montou um cursinho pré-vestibular para alunos carentes com aulas ao sábados -iniciativa que veio dos próprios alunos.

Reginaldo é um dos porta-vozes do cursinho. Ele visita escolas públicas incentivando alunos para o vestibular.

Neste ano, a maior universidade do país, a USP, também anunciou um cursinho com mil vagas para alunos carentes a partir de 2014. A ideia é atrair e capacitar jovens de baixa renda.

A medida faz parte do programa de inclusão da USP. A meta da universidade é chegar a 50% de alunos vindos de escolas públicas em 2018.
Hoje, são 28%, com variações entre os cursos. (SR)



Nenhum comentário:

Postar um comentário